“Não mexe comigo, que eu não ando só, eu não ando só, eu não só…” Foi com um chamado ao fortalecimento das mulheres em grupo, utilizando versos conhecidos na voz de Maria Betânia, que teve início o Seminário Internacional Mulheres, com um momento de mística e acolhida, no Centro Cultural de Brasília, na manhã desta quarta-feira, 15 de outubro.

Participantes, mulheres e homens, de várias partes do Brasil e de outros países, como Espanha e França, partilharam experiências de luta em pequenos grupos e, posteriormente, com todas as pessoas no auditório.

Tiveram destaque as lutas das mulheres negras, pescadoras, camponesas, ciganas, catadoras, nordestinas, empobrecidas, em situação de prostituição, educadoras, entre tantas outras em situação de invisibilidade social.

A programação da tarde teve início com uma mesa formada com representações da Cáritas Brasileira (Anadete Gonçalves), Cáritas Espanha (Francisco Cristobal), CNBB (dom Leonardo Ulrich), Secretaria Nacional de políticas para Mulher (dra. Lourdes Maria Bndeira) e Secretaria Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Arnoldo Anacleto de Campos).

Para a vice-presidente da Cáritas Brasileira, Anadete Gonçalves, “não é mais possível suportar a violência gritante sofrida pelas mulheres. Esse quadro somente poderá ser mudado com a discussão de políticas públicas concretas para a construção de um cenário diferente, de direitos e respeito do universo feminino”.

Na sequência, aconteceu o colóquio de abertura com o Tema Mulheres e o Cenário da Invisibilidade da Fome, Pobreza, Exploração e Tráfico Humano, com as professoras Maria Lúcia Leal e Márcia Maria de Oliveira.

Maria Lúcia, pós-doutora pelo Programa Pós-colonialismos e Cidadania Global do Centro de Estudos Sociais da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra/Portugal, a pobreza no país tem o rosto da mulher negra. “As relações dentro das famílias alimentam as condições inferiores as quais as mulheres são submetidas. Violência, sexo forçado, obrigações com trabalhos domésticos, cuidados com enfermos, idosos e crianças como funções não remuneradas, perpetuam essa realidade”, afirma a doutora, que destaca que 93% do trabalho doméstico no Brasil é de ocupação feminina.

Para Márcia Maria, que falou sobre o cenário mundial do tráfico e exploração sexual, há uma feminização da migração, principalmente para a Europa. “A indústria internacional do sexo é que mais cresce no mundo. No recorte do continente europeu, essa indústria tem como principal fonte na América Latina, as mulheres brasileiras, que são levadas, estrategicamente, com outras promessas de trabalho, sendo depois inserida nesse mercado”. Márcia Maria é doutora em Sociedade e Cultura na Amazônia.

A pesquisadora apresentou um curta-metragem de produção cearense, “Vida Maria”, que retrata como as informações de inferiorização do universo e trabalhos executados pelas mulheres, passam dentro das famílias, de mãe para filha, geração a geração.

O público participou do debate trazendo questões relacionadas à discussão de tantos agrupamentos sociais de representação feminina, como as mulheres presas e as de baixo índice de escolaridade. Também foi sugerida a produção de uma carta do evento, um documento oficial do Seminário, que deve ser direcionada à Presidência da República, para a concretização das discussões em políticas públicas sociais.

Um momento cultural encerrou o primeiro dia de evento. A atriz e escritora Lilia Diniz apresentou-se ao público de cerca de 120 pessoas, com repertório carregado de histórias características do universo das mulheres, como Maria Maria, de Milton Nacimento e Teresinha de Jesus, canção de domínio público da cultura popular.

Por Doroty Amaral :: Assessora de imprensa da Cáritas Brasileira

No related posts.