No último dia 13, a Comissão Pastoral da Terra (CPT) lançou sua publicação anual “Conflitos no Campo Brasil – 2014”. Na coletiva de imprensa, realizada na sede da CNBB, em Brasília, a Pastoral destacou a impunidade como a principal mantenedora da violência no campo. Além dela, a falta de uma efetiva reforma agrária e de políticas públicas que privilegiem os pequenos do campo também contribuem para os altos números de violência contra os pobres do campo.

 A CPT destacou, ainda, que o estado com maior número de assassinatos foi o Pará, com nove casos, seguido de Rondônia e Mato Grosso. Outro dado alarmante destacado pela Pastoral foi o crescimento do número de tentativas de assassinato, que apresentou um aumento de 273%, passando de 15 casos em 2013, para 56 em 2014.

 O maior índice de crescimento de conflitos e da violência no ano passado foi verificado nas regiões Sul e Sudeste. O total de conflitos no campo cresceu 91% na Região Sul, passando de 56 ocorrências em 2013, para 107 em 2014. O mesmo ocorreu no Sudeste, com aumento de 56% nos casos – 62 em 2013 para 253 em 2014. Mesmo com o Sul e o Sudeste apresentando grande crescimento do número de conflitos, o Nordeste foi o que teve mais casos (418), seguido pela Região Norte (379).

 A edição com números de 2014 marca os 30 anos da publicação, que é divulgada anualmente. Nesse período, foram registrados pela CPT 29.609 conflitos no campo, envolvendo 20.623.043 pessoas. Foram 23.079 conflitos por terra, 4.389 trabalhistas, 836 por água e 1.305 de outras naturezas. Entre 1985 e 2014, foram registrados 1.723 assassinatos em 1.307 ocorrências de conflitos.

 Para Jeane Bellini, da coordenação nacional da CPT, um dado preocupante é o da punição dos envolvidos nesse tipo de crime ao longo dos 30 anos. “Somente 108 casos foram levados a julgamento e pouco mais de 80 pessoas condenadas, além de mais de 20 mandantes, mas nenhum deles está preso.”

 Despejos :

O relatório da CPT evidenciou o aumento no número de famílias despejadas, um número 92% maior. Este crescimento se deu em todas as regiões do Brasil, menos no Norte. Para o presidente da CPT, dom Enemésio Lazzaris, o aumento dos conflitos e violência ocorre pela consolidação de um modelo de desenvolvimento que favorece o agronegócio e de modo geral, por causa da impunidade. “Há uma opção dos nossos governos pelo agronegócio, pela agricultura de exportação. Essas mortes, evidentemente, continuam porque o pessoal sabe que não há punição. Quanto mais se incentivar o agronegócio, a monocultura, mais problemas, mais conflitos, mais confusão, mais mortes nós teremos”, afirma dom Enemésio.

 Em relação ao aumento dos conflitos pela água, que passaram de 101 em 2013 para 127 em 2014, um aumento de 26%, Dom Enemésio assim analisou: “Esses conflitos aumentaram, primeiramente, por causa dos grandes projetos, como grandes hidrelétricas, grandes barragens. Depois por falta de preservação e por causa das pequenas barragens. Pessoas que fazendo uma barragem para favorecer a irrigação do seu terreno acabam impedindo que a água continue para os outros”.

 Os protagonistas das lutas:

Anastácio Peralta, indígena Guarani Kaiowá, participou do lançamento da publicação e falou da realidade dos conflitos indígenas no Mato Grosso do Sul.

 “Na nossa espiritualidade, a roça é o caminho de Deus, onde Deus vai andando e jogando as sementes. Então, a gente não planta para estragar a natureza, a gente planta para colher os frutos semeados por Deus. Na nossa espiritualidade a roça é um lugar de prazer, lazer, alegria, de felicidade, de paz. Mas, depois que vieram as pessoas do negócio, depois que veio a exploração, nós fomos obrigados a trabalhar na terra somente para sobreviver e a roça não é mais lugar de felicidade… e isso nos dá ódio da roça… Hoje, um boi vale mais do que uma criança indígena, a cana vale mais do que o pé de cedro, a soja vale mais do que a aroeira”.

Ele falou ainda dos causadores dos conflitos e reais destruidores do meio ambiente. “Antes da chegada dos colonizadores não existiam fronteiras pra nós, pois a terra, a mata, a água fazem parte da nossa vida. Antes, a gente podia correr dos problemas. Agora não pode mais. Temos que enfrentar, pois não temos nem mata para esconder e nem água para beber. Quem traz o conflito não somos nós! É a ganância da exploração que traz… Exploração que envenena a terra. Na nossa espiritualidade a Terra é nossa mãe e quem envenena a Terra, envenena a mãe. A nossa luta é para recuperar o meio-ambiente e a nossa vida”.

Já Elizabete Cerqueira, do acampamento Dom Tomás Balduino, de Corumbá de Goiás (GO), trouxe a experiência desse que foi o maior acampamento da história do estado de Goiás. Durante sete meses, 3.500 famílias produziram alimentos agroecológicos nas terras que serviam de pasto para os bois do senador Eunício de Oliveira. Em março, foram despejados, mas permanecem na luta e na esperança de conseguirem seu pedaço de chão. “Alguns dos nossos foram ameaçados, fomos despejados, mas nem por isso nos afastamos da luta”, completou.

 

Fonte: CPT

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