Choveu em Crateús na quinta-feira (04). Essa notícia, em si, já seria suficiente para encher de alegria e esperança o povo sertanejo da região dos Inhamuns-Crateús, no Ceará. Mas, além disso, a água que caiu do céu coroou o sucesso do primeiro dia de realização da XI Feira da Agricultura Familiar e Economia Popular Solidária, encerrada na noite do dia seguinte (05/06), na praça Gentil Cardoso, localizada em terras crateuenses. Realizado no 4º ano de seca neste território, o evento é mais um forte indício de como as aprendizagens e tecnologias voltadas à convivência com o Semiárido tornam, de fato, este chão recheado de resistências um lugar bom para bem viver. Testemunharam esses milagres da vida e da esperança pessoas de várias partes do Brasil, que vieram somar suas cirandas às deste evento.

“Neste ano, para fortalecer essa caminhada que já é uma referência para a rede Cáritas, no que se refere à realização de feira da agricultura familiar no Nordeste, trouxemos para dentro deste ambiente o Encontro Nacional de Encontro de Economia Popular Solidária, onde foi realizado o monitoramento do projeto nacional de Fundos Rotativos, assim como o Encontro de Mulheres do Semiárido da Rede Cáritas”, explicou Marcelo Lemos, assessor do secretariado nacional da Cáritas Brasileira. Além destes eventos, também foi experienciado em Crateús nestes dias o Intercâmbio Estadual de Catadoras/es de Material Reciclável. Estas rodas de conversa trouxeram, à dinâmica da feira, representantes de 15 estados brasileiros.

Na manhã do primeiro dia, enquanto cadastravam-se as/os feirantes de 30 municípios (19 das 20 cidades do território Inhamuns-Crateús presentes, número de difícil alcance mesmo em anos de inverno regular), eram finalizados o Encontro de Mulheres do Semiárido, realizado nos dias 03 e 04 no auditório do IFCE-Campus Crateús, e o Encontro da Rede Cáritas EPS, vivenciados nos mesmos dias, mas no auditório da Cáritas Diocesana de Crateús. Estas atividades foram encerradas ainda pela manhã, enquanto o Intercâmbio Estadual de Catadoras/es de Material Reciclável iniciava as ações, que culminariam apenas ao pôr do sol.

Do Intercâmbio, participaram catadoras/es de materiais recicláveis das regiões de Fortaleza, Metropolitana, Vale do Jaguaribe e Cariri, representando a Rede Estadual de Intercâmbio sobre Programa de Coleta Seletiva da Secretaria de Meio Ambiente de Crateús. O objetivo era conhecer a experiência do município que já foi contemplado em 2013 com o Prêmio Pró Catador, do governo Federal, por ter iniciativa de Coleta Seletiva com inclusão das/os catadoras/es, como prevê a Política Nacional de Resíduos Sólidos (lei 12.305 de agosto de 2010). Nas regiões citadas, onde há acompanhamento da Cáritas Regional Ceará junto às organizações desta categoria, ainda não é possível perceber avanços na efetivação da política citada. A categoria ainda luta por espaços adequados de trabalho, equipamentos, coleta seletiva e contratação por serviços prestados, dentre outros direitos.

“Se em Barbalha a gente chegasse ao menos a 10% disso aqui eu acharia um sonho”, desabafou o catador de materiais recicláveis José Justino da Silva, referindo-se ao descaso na aplicação da lei federal em seu município. Realidade que se repete na grande maioria das cidades brasileiras. Justino declarou ter ficado feliz em poder participar da feira e participado deste debate.

ENCONTRO DA REDE CÁRITAS EPS

Durante o movimentado encontro da Rede Cáritas de Economia Popular Solidária (EPS), houve espaço para apresentar o Projeto de Fortalecimento da Economia Solidária no Brasil, financiado pela Comunidade Europeia. Também foi realizada a segunda etapa do monitoramento do projeto de Fundos Rotativos Solidários. Além da troca de informações a respeito do andamento deste processo, tido como prioridade para a maioria das Cáritas diocesanas e entidades membro do Brasil, o encontro também serviu para fortalecer a experiência da feira de agricultura familiar e economia popular solidária da região de Crateús.

“Esse espaço [da feira] é muito representativo, de muita luta e muita teimosia, no bom sentido. De muitas pessoas de Crateús e toda região que fizeram e fazem deste evento como espaço que vem se consolidando cada vez mais como uma feira de referência nacional. Quem sabe ano que vem nós não vamos dobrar o número de pessoas, dobrar os estados? Esse também é o compromisso da Cáritas Brasileira, da Cáritas do Ceará e também da Cáritas de Crateús”, ponderou Fernando Zamban, do Secretariado Nacional da Cáritas Brasileira.

ENCONTRO DE MULHERES DO SEMIÁRIDO

“É no Semiárido que a vida pulsa, é no Semiárido que as mulheres resistem”!

Troca de experiências sobre convivência com o Semiárido, construção de uma consciência voltada para o protagonismo social e o empoderamento dos direitos. As participantes do Encontro de Mulheres do Semiárido chegaram ao segundo e último dia do evento, quinta-feira (04), com a promessa de multiplicar para outros espaços tudo o que foi visto e ouvido.

O início das atividades do segundo dia do evento ficou por conta da exibição do vídeo “Vida Maria”. A animação audiovisual conta a história de Maria José, uma menina que mora na zona rural e, como tantas outras, não consegue realizar o sonho de estudar, pois vive em um cenário onde o caminho para as mulheres limita-se ao casamento e à maternidade. O costume, mostrado no vídeo, é passado de geração em geração e Maria José reproduz para a filha a mesma situação que viveu.

Em seguida, foi formada uma mesa de discussão que reuniu mulheres que vivem o contexto do Semiárido sob diferentes atuações: agricultora, técnica de campo, educadora popular e militante de movimentos. Na ocasião, foi possível apresentar o campo como um espaço rico em oportunidades e saberes, mas também um lugar onde vivem mulheres que resistem às desigualdades, que enfrentam as dificuldades e se fortalecem a cada dia.

Ainda durante a manhã, foi apresentado o Manifesto da Marcha Regional das Mulheres Negras do Cariri que, neste ano, será realizada no dia 18 de novembro, em Brasília (DF). Como bandeira de luta, estão pautados o fim do feminicídio das mulheres negras, a investigação de todos os casos de violência doméstica, o fim do racismo e sexismo produzidos pela mídia, o fim do desrespeito religioso, o acesso aos serviços de saúde com qualidade nos atendimentos, a penalização pela discriminação racial, entre outros pontos. No Brasil, de acordo com o documento apresentado, estima-se que as mulheres negras representem 25% da população, um percentual equivalente a 49 milhões delas.

O fim do encontro foi marcado pela mística de envio, quando as mulheres, em dupla, fizeram um sinal na companheira com água, como forma de bênção. O momento foi realizado ao som da música “Maria, Maria”, interpretada por Milton Nascimento.

De acordo com a agricultora e líder comunitária, Alzira Ramos, 37, a participação no evento proporcionou mais do que novos conhecimentos, mas também uma nova pessoa. “Do município de Pedra, em Pernambuco, que é de onde eu venho, jamais imaginaria participar de um evento como esse e aprender tudo o que eu vi e escutei aqui. Além de satisfeita e agradecida à Cáritas pela oportunidade, eu volto para casa me sentindo uma nova mulher. Levo na bagagem novos conhecimentos, novas experiências e não quero guardar isso apenas para mim, mas vou compartilhar com outras mulheres da minha comunidade, porque o objetivo é ajudar o próximo. Cada vez me sinto mais completa”, afirmou.

Por Eraldo Paulino, comunicador popular da Cáritas Diocesana de Crateús, e Lidiane Santos, comunicadora popular da Cáritas Brasileira Regional Nordeste 2, com a colaboração de Solange Santana, comunicadora popular da Cáritas Diocesana de Crato, e Silvania Mendes, comunicadora popular da Cáritas Diocesana de Limoeiro

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