“Se eu não conheço, como vou amar?, como vou respeitar? Se a gente não conhece, tem preconceito”. A frase é do monge beneditino, teólogo e escritor Marcelo Barros de Sousa, que ministrou o painel Análise da Conjuntura Eclesial, atividade integrante da XX Assembleia Nacional da Cáritas Brasileira, ao lado da teóloga Carmem Lussi. Conforme o monge, esta falta de informação e o consequente preconceito que a mesma provoca, como no caso da perseguição aos cultos de matriz africana, está associada com um fenômeno cada vez mais comum nos dias atuais: o grupo de pessoas que se identifica como cristão, mas não possui confissão religiosa. “Perguntei a uma pessoa se era possível ser cristão sem estar integrado a uma comunidade, e esta pessoa me respondeu: não sou cristão genérico porque eu optei por isso. Sou porque não consegui me encontrar em nenhuma paróquia”.

Para Carmem Lussi, o desinteresse pelas confissões religiosas tradicionais estão associado à perda de identidade da chamada Igreja de Deus, que passou a apresentar, ao longo de sua trajetória histórica, um excesso de hierarquia e, consequentemente, um afastamento das comunidades. “Na África, vivi experiências com comunidades que enfrentavam secas terríveis e a perda dos últimos alimentos da lavoura e, ainda assim, cantavam em torno do altar: ‘Somos Igreja-família’. Dom Helder Câmara nunca se perguntou sobre a opção pelos pobres, porque, para ele, só havia essa opção. Essa era a opção do próprio Deus”, revela ela, explicando que uma mãe de vários filhos, quando um deles está com febre, o eleva à condição de favorito, porque é o filho doente precisa mais da sua atenção, enquanto durar a doença, do que os demais.

A teóloga lembra que “as instituições têm bens, poder dinheiro, mas são as pessoas que administram isso”. Ou seja, as instituições dependem das decisões das pessoas que as administram. De acordo com Carmem, após a passagem de D. Helder, muitas pessoas da Igreja fizeram a opção pelos pobres, mas nem todas elas tinham o discernimento ou a capacidade dele para o trabalho realizado junto aos grupos em situação de vulnerabilidade social. Além disso, a Igreja passou a viver um momento em que houve quem fizesse a opção pelos pobres somente no discurso, não demonstrando esta opção no cotidiano de suas vivências. Sobre o assunto, Marcelo Barros destaca que a Mística da Pobreza tem como orientação: despojar-se dos bens para viver junto com os pobres. “A Mística da Pobreza aproximou a Igreja do povo. Antes, quando o padre ia à fábrica, era para falar com o empresário. Agora, o padre ia à fábrica e virava operário”.

Carmem enfatiza que, atualmente, setores da Igreja, entre os quais aqueles dedicados às pastorais sociais, trabalham na comunhão com os pobres, mas contra a pobreza injusta. Projetos como o das cisternas no Nordeste e aqueles direcionados à agricultura familiar são exemplos de ações neste sentido, que se dirigem aos setores sociais marginalizados, mas que têm como objetivo a superação da pobreza – e não sua valorização. Marcelo, por sua vez, enfatiza que a Pastoral é, necessariamente, uma ação da Igreja, e, sendo assim, deve testemunhar o reino de Deus. Ele lembra que a irmã Dorothy Stang, que foi aluna dele em um curso de Bíblia, para além de toda a ação social que realizava junto aos pequenos agricultores e que foi a motivação de seu assassinato a mando de um fazendeiro, trabalhava ao mesmo tempo em nome do reino. “É a opção em ser Igreja, mas a ‘Igreja em saída’ de que nos fala o Papa Francisco. A Cáritas se enquadra neste contexto, porque é um serviço que a Igreja presta à sociedade”, sintetiza o monge. Tanto ele quanto Carmem afirmam que não basta à Igreja ser democracia. Ela tem que ser mais: tem que ser comunhão. “Não adianta prolatar conceitos se eles não são postos em prática, inclusive nas relações internas. Estamos cansados de arrogância, de má gestão dos recursos, de assédio moral nos organismos ligados à Igreja”, desabafa a teóloga.

Por Luciano Gallas / Assessoria Nacional de Comunicação

Foto: Luciano Gallas

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