Líderes e representantes de dez grupos religiosos conduziram, na última quinta-feira (14), na cidade do Recife, a Celebração Inter-religiosa pela Paz, evento que marcou, antecipadamente, o 102º Dia Mundial do Migrante e do Refugiado, no Regional Nordeste 2.

Na ocasião, o público teve a oportunidade de escutar, a partir dos textos sagrados e das falas dos celebrantes, elementos, que há séculos perpassam os diversos credos, relacionados ao acolhimento do estrangeiro e que se aplicam aos dias de hoje, quando há milhões de pessoas no mundo em busca de um lugar protegido e livre da perseguição religiosa, entre outros motivos que levam à procura de um refúgio.

O arcebispo de Olinda e Recife, Dom Fernando Saburido, citou, durante sua fala, o capítulo 25 do Evangelho de Mateus, no ponto que Jesus se coloca na condição de peregrino, e lembrou mensagens do atual Sumo Pontífice que falam da postura dos cristãos católicos diante das realidades mais urgentes. “No início deste ano, o Papa Francisco, na sua mensagem do Dia Mundial da Paz, pede-nos que não sejamos indiferentes aos desafios que nos cercam. E acredito que esse esforço deve partir de nós religiosos, que temos essa dimensão de fé, superando as nossas diferenças teológicas e nos unindo em torno das questões sociais que nos congregam”, salientou o arcebispo, também presidente regional da CNBB NE2.

Para a representante das religiões de matriz africana, Mãe Elza de Yemoja, a questão dos refugiados desperta a lembrança dos antepassados que precisaram, de forma forçada, atravessar o oceano para serem explorados no Brasil.

“Fomos sequestrados e perdemos tudo. O direito de ter, de alimentar-se, de professar a nossa fé, de viver aquilo que somos, e assim acontece com tantos ainda hoje”, disse a ialorixá.

O professor Jáder Tachlitsky, da comunidade judaica de Pernambuco, recordou o Patriarca Abraão, que, em sua tenda, abrigava os que o procuravam, oferecendo, além de hospitalidade material, mas também acolhimento espiritual. “O judaísmo trouxe a crença no Deus Uno, criador de todas as coisas, entre elas o homem, sua obra maior. E Deus espera do ser humano uma parceria, aperfeiçoando aquilo que foi criado, por meio de suas atitudes”, destacou. Tachlitsky ainda falou que, mesmo em meio a tantas perseguições sofridas pelo povo judeu, há ainda esperança de dias melhores. “O próprio judaísmo tem uma visão otimista em relação ao futuro da humanidade. A profecia de Isaías vê que, independente da condição de cada ser, haverá um dia que todos estarão congregados”, concluiu o professor.

Com a iniciativa, a Cáritas Regional NE2, como organizadora do evento, quis facilitar o diálogo inter-religioso, estimulando outras iniciativas que combatam a xenofobia e a intolerância religiosa, e a busca de soluções para a recepção e inserção, na vida local, dos refugiados. Para o secretário do Regional NE2, Angelo Zanré, é preciso reunir os setores da sociedade, discutir e encontrar formas para acolher. “Não se pode pensar em ações paliativas, um lugar para dormir uma ou duas noites, algumas refeições, um cafezinho. Mas é necessária uma estrutura que seja suficientemente capaz de oferecer condições para que esse refugiado seja recebido e integrado à sociedade, com acesso básico aos serviços sociais, emprego”.

Zanré ressaltou também que não se pode deixar levar por uma onda de pessimismo. “Nesses últimos tempos, fala-se muito a palavra ‘crise’. Quantas vezes ela é repetida em um noticiário. Mas não podemos nos prender a isso. Precisamos transformar 2016 em um ano de acolhimento, de solidariedade, de fraternidade.”

Participaram ainda outros líderes cristãos (ortodoxos, anglicanos e luteranos), islâmico, budista e da doutrina espírita e da Fé Bahá´í.

Lembranças

Ao longo da celebração, foram apresentadas, pelo coral Ensemble Vocal Cantamus, peças musicais clásssicas que remetiam à paz. Além disso, também houve, na programação do encontro, um minuto de silêncio pelos que já morreram ou sofrem nos dias de hoje com a intolerância religiosa.

Para retratar um pouco do que acontece, nesse sentido, a iraniana Farideh Zareh, seguidora da Fé Bahá´í, falou sobre a realidade de perseguição à religião praticada por ela no seu país de origem e em outros dominados pelo extremismo islâmico. “Desde o início, no século XIX, os Bahá´í foram perseguidos. Quando sai do Irã, há 37 anos, tinha diminuído um pouco as prisões e mortes. Mas dois anos após minha vinda para o Brasil, com a mudança de regime político, as perseguições passaram a ser mais frequentes. Consegui um visto para visitar meus pais no Irã mais de 25 anos depois de sair de lá e, mesmo assim, fui e não pude, assim como meus familiares, manifestarmos a nossa fé”.

A mudança de regime que Zareh se refere diz respeito à Revolução Islâmica, comandada pelo Aiatolá Sayyid Ruhollah Musavi Khomeini. De lá pra cá, com o domínio, no regime de república teocrática, a repressão à religião ficou mais agressiva, com restrições aos Bahá´ís de ingressarem na universidade e como servidores públicos, além de prisões e execuções. A iraniana relatou que, na sua última estadia no Irã, quando estava na casa dos pais, tomou conhecimento da prisão de 15 seguidores.

As agressões sofridas pelos Bahá´ís foram objetos de discussão em organismos internacionais, como a Organização das Nações Unidas (ONU).

Por Wagner Cesário | Assessoria de Comunicação da Cáritas NE2.

 

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